Negras: Mulheres que são a minoria dentro da minoria

Por: Alane Luzia/ NegrAlane

mulher negra

A sociedade atual é dividida em classes. A classe dona das estruturas de poder subordina as demais que devem trabalhar muito para em vez de viver, sobreviver. São longas jornadas de trabalho, onde o tempo livre é reservado somente ao descanso para então recomeçar uma nova jornada. Só que a questão social não resume-se somente a isso, existem outras estruturas de poder que subordinam outros grupos sociais, dentro dos próprios já subordinados, essas estruturas são machismo e racismo. Tanto machismo quanto racismo são questões estruturais, o que significa dizer que estão presentes em cada relação social de tal forma a serem consideradas condutas/situações normais e não serem percebidas pela sociedade em geral.

Sendo assim, a intenção deste trabalho é problematizar a situação das mulheres negras, principalmente, no âmbito da sociedade brasileira, contexto do qual falamos, trabalhando com dados estatísticos e referências bibliográficas do assunto.

 

  • Machismo é estrutural

 

Desde que o movimento feminista existe as mulheres conquistaram muitos direitos que seriam impensáveis sem que a constituição de tais grupos existisse. Apesar de todas as conquistas feitas pode-se ainda dizer que a luta das mulheres não atingiu nem metade da pauta, pois apesar de que as mulheres agora, em boa parte dos países do mundo possam votar e estudar, elas continuam a ter menos oportunidades e a receber menos pelos mesmos trabalhos. Elas ainda sofrem muita violência muitas vezes vinda de seus próprios parceiros, quem em tese deveriam ser quem elas poderiam confiar.

O machismo é estrutural por que está presente em todas as relações, de forma que a maioria das condutas machistas são naturalizadas e consideradas normais, quando um cara pode andar sem camisa por aí, por exemplo, e uma mulher se fizer o mesmo não será olhada com bons olhos. Quando por ser uma mulher dirigindo automaticamente já se espera que dirija mal, quando uma presidenta é questionada como gestora e o tempo todo a questão de ser mulher é pautada, e se fosse  um presidente seria tratado como mal gestor e não haveria argumentos de gênero, quando existem tipos de mulher (ex: para casar), comportamento de mulher e etc. Todas estes são apenas alguns exemplos de como o machismo está presente estruturando a sociedade.

A luta feminista por igualdade de gênero é muito importante, no entanto o considerado “feminismo tradicional” é voltado para mulheres padrão, que são mulheres brancas, heterossexuais, afinal as pautas deste feminismo são, principalmente, o espaço da mulher no local de trabalho e pelo fim da ideia de sexo frágil e as mulheres negras nunca foram consideradas frágeis, pelo contrário, sempre foram tratadas como coisas. (MOURA, 1988)

 

  • As mulheres negras e o racismo estrutural

 

As mulheres negras trabalham desde a escravidão, desempenhando a mesma função que os homens e tendo ainda a função a mais que era amamentar.

As mulheres negras também desde a escravidão foram hiper sexualizadas e até hoje são classificadas em dois grupos. As de pele mais clara são objeto de desejo masculino, principalmente por homens brancos e para relações não duradouras, já que no momento de assumir relacionamentos sérios elas são preteridas. ²

Já as mulheres negras mais escuras são objetificadas de forma a serem consideradas a negra empregada doméstica. Um bom exemplo dessa dualidade é o caso da globeleza. Todo ano são colocadas na vinheta de carnaval da rede globo uma mulher negra nua a dançar e “agradar os olhos de quem olha”, mas em 2014 Nayara Justino,  uma negra de pele escura ganhou através de um concurso do fantástico o posto de nova globeleza, a anterior tinha ficado dez anos, mas logo que ela ganhou o concurso surgiu uma “enxurrada de críticas ” já que  “seu tom de pele, ‘mais negro’ que o das outras mulheres que ocuparam o posto nos anos anteriores, motivou a explosão de comentários racistas”, o resultado foi que no ano seguinte ela já foi substituída por uma negra padrão.³

Ainda, pesquisas mostram que as mulheres negras são as mais afetadas pela carga tributária nacional, já que a tributação no Brasil é feita em grande parte sob consumo, e as mulheres negras tem os menores salários, estas recebem sim as maiores cargas tributárias.4 As reformas previdenciária e do FGTS que vem sendo propostas pelo atual governo também viriam pesar majoritariamente para o mesmo grupo. Isso por que o racismo também é estrutural.

Dizer que o racismo é estrutural, é pensar o racismo também em todas as esferas da vida dos indivíduos, é pensar na esfera econômica, na esfera política e na esfera da subjetividade humana.5

Racismo não se encontra só no comportamento de ofender alguém verbalmente em razão de cor, nem mesmo em proibir a entrada em determinados locais ,mas trata-se também de receber os menores salários, estar nos piores empregos, estar concentrado majoritariamente nas periferias, estar nos maiores índices de assassinatos, ser a maioria da população carcerária, ter suas religiões tratadas como demoníacas. O racismo é estrutural quando a sociedade não vê nada de errado com um congresso nacional quase que inteiramente branco, em um país onde 51% da população se autodenomina preta ou parda.

Agora imagina se fosse ao contrário, se a maioria do congresso fosse negra e a baixa representatividade fosse branca, não parece estranho? Isso por que a exclusão da população negra dos espaços de poder é completamente naturalizada, e isso chama-se racismo estrutural.

É por todos estes motivos que deve-se dar o devido destaque e importância à atuação dos movimentos feministas negros, e ainda mais dos movimentos feministas interseccionais, por que esses movimentos fazem esse debate englobando as diversas questões essenciais da estrutura social e não fazem recorte de luta, eles contestam gênero, raça e classe, debates necessários atualmente.

 

  • Considerações Finais

 

Vivemos em uma época de acirradas disputas políticas e em que as diversas questões sociais têm sido postas em pauta, pois muitos movimentos historicamente silenciados tem alcançado importância graças ao poder disseminador da internet. Nesse contexto, não devemos ficar por fora dos diferentes debates, ainda que não sejamos mulheres, ou ainda que não sejamos mulheres negras. É preciso reconhecer o lugar de poder de ser homem e falar sobre esse privilégio sempre que é possível, como apoio à luta feminina, afinal a voz masculina, pelo lugar de poder onde se encontra chega a lugares de poder que a feminina não chega. E essencial principalmente que mulheres brancas e homens de todas as cores não tirem o lugar de fala das mulheres negras, mas também que quando puderem falar algo lembrem das mesmas, afinal elas vivem o machismo e o racismo, além da dominação de classe, já que é difícil encontrar mulheres negras que não estejam na classe subalterna.

Referências:

² http://www.revistaforum.com.br/semanal/a-solidao-tem-cor/

³ http://emais.estadao.com.br/noticias/tv,demitida-por-ser-negra-demais-nayara-justino-tem-redencao-em-novela-da-record,10000054734

4 YOUTUBE. Boitempo Tv. O que é racismo estrutral. https://www.youtube.com/watch?v=PD4Ew5DIGrU

5 Idem.

http://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Politica/No-Brasil-mulheres-negras-pagam-mais-impostos-do-que-homens-brancos/4/31788

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