Carta ao povo da região do Araguaia

A Carta que partilhamos a seguir de produção coletiva   explica o contribuição do movimento de luta armada de Araguaia á conquista de direitos e da democracia efetiva.  E conclama pela defesa dos avanços  atacados pelo governo golpista e seus aliados de classe  contrários ao direitos do  povo.  

Somos centenas de homens e mulheres, retirantes dos largos sertões brasileiros, filhos das grotas e das corrutelas, das matas e da alargada pobreza, somos a humanidade do caudaloso Araguaia, rio largo dos Karajás, dos garimpos, aldeias indígenas e castanhais.
Por todo um período histórico fomos atingidos violentamente quando, em 1972, tropas militares ensandecidas invadiram a região, palmilharam nossas casas e roças, perseguindo a nós e aos nossos amigos na qual chamávamos carinhosamente de “Povo da Mata” e que depois se tornariam guerrilheiros lutando pela insurgente liberdade.
Nesse processo o regime se voltou contra os guerrilheiros e, também, contra nós, camponeses e indígenas. Pudemos conhecer a tortura, o pau-de-arara, o confinamento, nossas filhas foram violadas e fomos atingidos naquilo que para nós é mais sagrado, a dignidade.
Nossas poucas terras foram tomadas e nos submeteram a miséria.
Transformaram-nos em rastejadores para caçar quem sempre nos teve respeito e solidariedade.
Se temos na atualidade, direito ao voto e à organização, se os sindicatos tem autonomia, se os trabalhadores podem reivindicar direitos e se não há mais censuras e exílios é porque muitos lutaram e morreram num combate sempre desigual contra as forças de segurança da ditadura militar.
Uma dívida histórica o Brasil têm para conosco, camponeses e indígenas dos sertões do Araguaia.
Uma dívida reconhecida, cantada em verso e prosa, anunciada pelas mais altas autoridades do país.
Acontece que a democracia no Brasil foi assaltada. A condução do país está nas mãos dos inimigos do povo, da democracia e da soberania nacional.
No bojo do desmonte dos direitos sociais e trabalhistas, à esteira do esgarçamento da política indigenista, diante do recrudescimento da violência política na Amazônia paraense, da criminalização dos movimentos sociais e da luta pelos direitos humanos é que denunciamos que o governo ilegítimo e corrupto de Temer promove um retrocesso na pauta da Justiça de Transição e uma de suas primeiras medidas foi intervir na Comissão de Anistia do Ministério da Justiça – órgão do Estado brasileiro responsável pelas políticas de reparação e memória para as vítimas da ditadura civil-militar – e vários membros, históricos, foram exonerados de suas funções.
O resultado do intento golpista foi o indeferimento de processos relativos à memória e reparação das vitimas dos tempos tenebrosos da repressão política, assim como, também, o rebaixamento dos esforços na localização e identificação dos desaparecidos políticos na Guerrilha do Araguaia.
O Brasil precisa se insurgir contra os retrocessos!
Mas, diante da crise política em curso e da necessidade da retomada do caminho democrático, um noticia emerge como um bálsamo: o esforço realizado pela Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa) no sentido de tombar a “Casa Azul”, localizada em Marabá, um dos maiores centros clandestinos de liquidação física de opositores aos tirânicos e estreludos generais que subverteram a vida brasileira entre 1964 até 1985.
O intento da Unifesspa é uma fundamental trincheira na luta contra o obscurantismo e em defesa da memória das vítimas de tão opressor regime.
Daqui, diante das margens heroicas dos gigantes Araguaia e Tocantins é que firmamos que estamos imanados na luta pelo Fora Temer e Diretas Já, caminho seguro para a verdadeira emancipação dos brasileiros.

#Fora Temer! #Diretas Já!
Marabá, 20 de maio de 2017.
Partido Comunista do Brasil
Instituto Paulo Fonteles de Direitos Humanos
Associação dos Torturados na Guerrilha do Araguaia
Fundação Mauricio Grabois

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