GOLPES: 1964 e 2016

O companheiro Jandir, membro do nosso coletivo Os Irredentos, a partir da apresentação do  histórico dos golpes no nosso país propõe realizar um trabalho de análise criteriosa de como funciona o sistema capitalista e sua permanente tensão para controlar o poder político. O autor propõe romper com a  dominação e construir novos espaços e  caminhos.

Por  Jandir Santin

Quando aconteceu o Golpe Civil-Militar de 1964, o país inteiro achava tratar-se de um ‘pequeno’ incidente na trajetória da democracia representativa. Já havia acontecido algo semelhante em outras circunstâncias e a ‘normalidade democrática’ sempre voltara a funcionar. O mesmo era esperado pela grande maioria de brasileiros/as em abril de 1964. Parecia tratar-se de um expurgo de “vermelhos” das instâncias do Poder e de uma substituição dos mesmos por pessoas e grupos mais confiáveis para o Império de turno: os Estados Unidos do Norte, um dos protagonistas da guerra fria.

            Mas não foi o que aconteceu, frustrando as expectativas de muitos, despachando milhares para o exílio, centenas para a tortura e o assassinato nas prisões políticas, levando outros para o enfrentamento político com o regime, assim como para o confronto armado e muitos, à acomodação ou ao apoio declarado ao regime ditatorial. E lá se foram 21 anos de ditadura que geraram consequências profundas e duradouras à nação brasileira. Boa parte do que acontece hoje com nossa organização política, econômica e cultural é fruto do longo período de governo autoritário, intromissão do mesmo nas organizações sociais, como os sindicatos e partidos, a intervenção no processo educacional com a eliminação das disciplinas de formação histórica, humana e social, a submissão dos sindicatos ao Ministério do Trabalho, a paralização da Reforma Agrária, o fim da ‘política estudantil’ formadora de lideranças políticas, etc. etc.

            Quando o Golpe ‘parlamentar’ começou a ser arquitetado logo após a vitória de Dilma no 2º turno das eleições de 2014, os movimentos sociais/populares e os partidos que apoiavam, de fato, o governo do PT, pensavam que haveria boicotes parlamentares ao executivo, dificuldades causadas pela crise econômica que deixou de ser uma “marolinha” e chegou ao país com toda a força, mas que o governo eleito passaria pela ‘prova’ de fogo e se recuperaria no período seguinte com a volta de Lula…

            Pois bem, todos sabemos o que aconteceu em 2015 e 2016. O Golpe foi bem arquitetado com a ação combinada dos ‘três poderes’, pois dele participaram personagens do interior do executivo (haja visto a traição do vice de Dilma e de ministros de governo!), do legislativo e de parte do judiciário. E, para garantir o apoio da nação, a influência ‘insuspeita’ da Rede Globo…

            Mas, o que o PT e seus aliados, os movimentos sociais/populares e os ‘torcedores’ do ‘governo popular’ não imaginavam era que o Golpe estava bem arquitetado em comunhão com o Capital Financeiro/Bancário e com o aval/contribuição do Império. De fato, trata-se de um Movimento Globalizado do Sistema Capitalista para retomar seus rumos Neoliberais e impedir que as tentativas de blocos desenvolvimentistas construídos por governos ‘populares’ e blocos econômicos, como os BRICS, atrapalhassem a acumulação de capital e de lucros do Sistema. A pressa do ‘novo governo’ em implementar as diversas reformas nos ajudam a entender melhor o quanto estava bem arquitetado o golpe e suas intenções. Prova desse despreparo eram as declarações e opiniões correntes entre os ‘atingidos’ pelo golpe: “é um governo provisório para barrar a sequência de conquistas sociais pelo povo”! “O governo Temer é apenas uma preparação para a volta do PSDB ao poder. Por isso, pode se desgastar, fazer o ‘serviço sujo’ para que o próximo governo não precise se tornar imediatamente impopular”! Até mesmo os mais ‘avisados’ que denunciavam a possibilidade de grandes perdas sociais para os mais pobres, conseguiam prever o alcance profundo das medidas anunciadas pelo novo des-governo. Parecia repetirem-se as expectativas a respeito do Golpe civil-militar de 1964: um golpe com características fundamentalmente político-ideológicas.

 É evidente, porém, que aqui havia um ingrediente econômico: a crise do Sistema chegando com seu peso negativo e sendo atribuída ao governo de turno e não ao Capital…

            Mas é preciso ter em conta que a retaguarda e os objetivos dos golpes políticos (sejam perpetrados pelas forças internas, seja pela conjugação das internas com as ‘externas’!) são SEMPRE ECONÔMICOS! Quando os interesses do Capital estão em jogo, este não permite que o poder político continue nas mãos de “não-parceiros”!  Basta olhar para a história do Brasil e de tantos outros países conhecidos para constatar a verdade desta afirmação. Analisem, p.e., os últimos golpes perpetrados nos países da América Latina e o ataque sistemático aos governos que tentam não seguir os parâmetros do Capitalismo Financeiro Mundial! Se nem a Comunidade Econômica Europeia conseguiu dar nova face ao sistema e nem a força econômica dos BRICS com seu próprio banco colocou em cheque a  potência do Banco Mundial e do FMI, como confiar que um país do capitalismo periférico ou mesmo um bloco de países consiga ‘furar’ a carapaça do Sistema Hegemônico?!

            Bem, camaradas/companheiros/as, vocês podem se perguntar: E daí, se isso aí é um fato e uma realidade com os quais temos que conviver, o que nos resta fazer? Temos como enfrentar essa ‘fera’ que já venceu inúmeras guerras e infligiu aos povos tantas derrotas?

            Se você, como eu, está há muitos anos na luta por um Novo Mundo Possível, Mais Justo e Solidário, Socialista, já deve ter passado por muitas experiências de perdas, de derrotas, assim como de pequenas vitórias, de pequenos avanços, de renascimentos da esperança. Por isso, não cabe desesperar-se, nem achar que “tá pelada a coruja” e “vamos jogar a toalha”!  Cada etapa da luta revolucionária tem suas características e seus aprendizados. A primeira missão nossa é APRENDER com os acontecimentos, o que significa: aprender com nossos erros, enganos, equívocos e também com nossos acertos. Talvez esta aprendizagem seja uma das mais difíceis para ‘os/as lutadores/as do povo’. Com que facilidade repetimos os mesmos erros, voltamos a confiar nos inimigos históricos, a achar que podemos contar com gente e grupos que são movidos por outros interesses que não é a mudança, a transformação da realidade! Vasculhar a história das lutas populares do povo brasileiro ou de outros povos e analisá-las para aprender como lidar com os iguais, com os semelhantes e com os adversários e inimigos pode ser uma missão a ser enfrentada nestes momentos de paralisia dos movimentos sociais. Temos tantas lutas populares do povo brasileiro contra seus opressores locais ou estrangeiros: contestado, sabinada, farroupilha, cabanagem, as guerrilhas que enfrentaram a ditadura de 68 a 75, o Movimento Tupamaro, o Montenero e outros. Embora as escolas, o ensino oficial não faz os/as educandos/as conhecerem e estudarem essas lutas, hoje temos formas de conhecê-las e estudá-las fora das salas de aula. Talvez esta seja uma das nossas tarefas em tempos de governo golpista ‘incubado’ no ninho de um governo ‘popular’, como o ovo da serpente chocado por formigas… O conhecimento histórico das lutas de classe, das lutas de nosso povo nos fortalecerá na busca d soluções para a crise atual!

            Hoje é fundamental entender o funcionamento do Sistema Capitalista em suas diversas fases e, especialmente em sua etapa atual de Capitalismo Financeiro e de ‘retorno ao neoliberalismo’ pós crise econômica global. Sem isso é difícil compreender o que o governo golpista está fazendo com este país, enquanto o povo continua assistindo sem entender. Aliás, esta é outra lição que a História dos Governos deste país nos pode dar: o povo ASSISTIU SEM ENTENDER a invasão dos portugueses, a chegada da família real de Portugal e a tomada, à força, das suas casas, o famoso ‘FICO’  de D. Pedro I, o Grito do Ipiranga, a Expulsão da Princesa Isabel, a Proclamação da República e, até mesmo, o Golpe de 64…Mas esse mesmo povo se manifestou no Movimento das Diretas Já, no Impeachment do Collor e da Dilma. Ou seja, podemos perceber uma evolução, avanços na tomada de consciência política do nosso povo. Nem se quer o trabalho intenso da grande mídia a favor do golpe e do governo golpista conseguiu anular por inteiro a consciência popular. Talvez a atual ‘paralisia’ do movimento popular se deva à surpresa com que o golpismo está implementando as reformas que retiram e suprimem direitos do povo trabalhador. As próprias lideranças do movimento popular estão sendo apanhadas sem respostas adequadas a tantos ataques do Capital! Eu diria que é fundamental o conhecimento histórico das lutas populares, mas nem este é  suficiente, pois o Sistema Dominante sempre tem ‘cartas escondidas nas mangas’. Por isso, além do conhecimento histórico é necessária boa dose de ousadia, de tentar o novo, o diferente. P. e: talvez não seja possível, na situação atual da economia capitalista, o desejado EMPREGO para sobreviver. Daí a necessidade de se perguntar: “O ÚNICO MODO DE SOBREVIVER É TENDO UM EMPREGO”? Não há outras formas de viver e viver melhor do que vendendo a força de trabalho? Não há outras formas de ganhar a vida honestamente e com qualidade de vida?!

            Creio que as duas respostas do movimento popular à crise instituía pelo Capital e seus governos sejam: Conhecer o funcionamento do Sistema Capitalista e sua fase atual como Capitalismo Financeiro e buscar novas formas de viver honesta e humanamente sem vender a força de trabalho e a liberdade. Vamos tentar?! Abraços revolucionários e socialistas a todos/as.

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