Liderança popular argentina completa 300 dias na prisão: “Temos uma ditadura”

Segundo resolução das Nações Unidas, a detenção da dirigente popular é uma arbitrariedade

Notas Periodismo Popular I Redação
Buenos Aires, Argentina , 15 de Novembro de 2016 às 12:34
Reproduzida por Brasil de  Fato
“[O governador de Jujuy] Morales acha que é dono da verdade, patrão das fazendas”, afirma liderança / Notas.org.ar

No último dia 11 de novembro completaram-se 300 dias da detenção de Milagro Sala, dirigente da organização popular argentina Tupac Amaru. Ela está presa no Alto Comedero, na província de Jujuy, no norte do país. Diretamente da prisão, em entrevista à Radio 10, Sala afirmou que “em Jujuy vivemos uma ditadura militar”, em referência às políticas do governador Gerardo Moraes, líder do Cambiemos, coalizão que levou Mauricio Macri à presidência da Argentina.

Durante a entrevista, a liderança indígena apontou que ela e os outros militantes detidos estão “fortes”, e que na província é recorrente o uso de escutas telefônicas, perseguições e, inclusive, tiroteios contra os membros da organização Tupac Amaru e outros movimentos sociais que não apoiam o governo provincial.

Sala diz que o governador Gerardo Moraes “estraga tudo”, lembrando a resolução emitida pela Organização das Nações Unidas (ONU) e ignorada até o momento pelas autoridades governamentais, judiciais e legislativas da Argentina. “Há uma obsessão contra a nossa organização”, afirma.

“[Ele] tem medo da gente. Morales acha que é dono da verdade, patrão de fazendas e quem não faz o que ele diz, vai preso”, acrescenta.

No dia 28 de outubro, o Grupo de Trabalho das Nações Unidas criado para analisar o caso da militante afirmou que “a detenção da senhora Milagro Sala é arbitrária” e solicitou “ao governo da República Argentina a imediata liberação”. A denúncia ao organismo internacional foi apresentada pela Anistia Internacional, o Centro de Estudos Legais e Sociais (CELS) e a Associação de Advogados e Advogadas do NOA [Noroeste Argentino] em Diretos Humanos e Socais (ANDHES).

O Grupo de Trabalho determinou ainda que as acusações consecutivas e a abertura das diferentes ações judiciais contra Milagro Sala tem o objetivo de assegurar por tempo indeterminado a privação de liberdade da dirigente. Neste mesmo sentido, indicaram que está sendo violada a independência judicial.

Outro fator é que por ser parlamentar do Mercosul, Sala deveria contar com foro privilegiado, o que foi ignorado, como aponta a comissão da ONU. Os organismos denunciantes afirmaram também que “o Estado argentino tem a responsabilidade de cumprir com as medidas determinadas pelo Grupo de Trabalho”, mas até o momento não houve retorno dos funcionários do Judiciário.

300 dias

Dias antes de Milagro completar 300 dias de prisão, foram liberadas Maria Molina e Elba Jesús Galarza, também integrantes da organização Tupac Amaru e detidas junto à dirigente. “Continuamos fortes, estamos fortes, mas vemos que as nossas famílias e companheiros se angustiam”, disse Milagro, fazendo referência aos outros nove militantes do movimento que ainda estão na cadeia.

“Temos muitíssima esperança porque entendemos que a resolução da ONU tem que ser respeitada”, afirmou. Em relação à omissão das autoridades, ela assegura que “eles mesmos estão se contradizendo, pois sempre dizem que ‘as instituições tem que ser respeitadas’ e hoje eles não as estão respeitando”.

De forma paralela, o governador da província de Jujuy y dirigente da coalizão Cambiemos, Gerardo Morales, realizou uma viagem à China. Nas redes sociais, ele publicou uma série de imagens e comentários desafortunados que provocaram uma onda de repostas em repúdio. “A Muralha Chinesa convida a refletir sobre os povos que se propõem sonhos, tudo podem, ainda o que parece impossível”, dizia a postagem, ignorando que a muralha foi construída com mãos escravas.

Sobre a resolução das Nações Unidas, Morales tem dito que “trata-se de uma opinião muito leve”; e em relação à Milagro, afirmou: “Não vou liberar essa mulher”.

Tradução: Maria Julia Giménez

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