Não podemos ficar apenas na defensiva.

Agora, como em outros momentos da nossa história, é preciso apostar na ousadia.

Ricardo Gebrim*

São Paulo, 05 de Setembro de 2016 às 16:26
Fotos: Blog Os Irredentos

No dia da votação do impeachment, na reunião do usurpador Michel Temer com seu ministério, faltaram apenas os óculos escuros e as fardas para reproduzir em nossas memórias a cena em que Pinochet reúne seu grupo ministerial para anunciar o golpe militar. Não era apenas a semelhança das imagens. Quando Temer anuncia, com seu tom pomposo, que não toleraria “ser chamado de golpista”, o aceno de cabeça submisso de Alexandre de Morais era a senha para iniciar uma nova postura repressiva.

No ataque absurdo desferido pela Tropa de Choque contra a marcha que descia pacificamente a rua da Consolação, em São Paulo, naquela mesma noite, trocaram a tática militar de dispersão, até então utilizada, pelo que chamam de “sufocamento”. O objetivo era claro: aterrorizar. Intimidar as futuras mobilizações.

Não conseguiram. Os atos de domingo, reunindo muitos milhares em São Paulo e em diversas cidades, além da ocupação do Ministério do Planejamento pelos movimentos populares do campo, foram as respostas populares das ruas, demonstrando que a resistência não vai se intimidar e que a luta contra o golpe está apenas começando.

Mas as forças econômicas e sociais que patrocinaram esse ataque contra a democracia seguem sua ofensiva de cerco político e sabem que é preciso aniquilar a capacidade de resistência, conjugando repressão, manipulação midiática e a tentativa de estimular divisões nos setores populares e criminalizar lideranças. Os ataques da mídia à liderança de Lula preparam terreno para retirá-lo de uma futura disputa política, prevista para 2018. Os golpistas sabem que uma nova ofensiva neoliberal vai gerar muita resistência e por isso não podem conviver com as organizações populares. Assim, podemos prever que utilizarão todos os meios para destruí-las.

A rapidez com que os golpistas atacarão as conquistas sociais da última década já está anunciada. Desejam pulverizar nossa resistência. Esperam que os petroleiros defendam apenas o marco regulatório do petróleo, enquanto os eletricitários lutem contra as novas privatizações do setor elétrico e as centrais se concentrem na luta contra a reforma da previdência.

A unidade até agora conquistada na luta popular em torno das palavras de ordem “Fora, Temer”, “Diretas Já” e “Nenhum Direito a Menos” representa um importante passo em nossa concentração de forças, mas nos mantém numa resposta passiva, isto é, limitados a apenas responder a ofensiva dos golpistas.

Mas precisamos enfrentar um contexto ainda mais duro. O golpe representa uma derrota estratégica para as forças populares e democráticas. Enfrentá-lo exigirá unidade, mas também a capacidade de aprender com outras experiências históricas em que a classe trabalhadora enfrentou situações análogas. Há um texto clássico, do revolucionário Mao Tsé Tung, chamado “A Defensiva Estratégica”, que tem muito a nos ensinar neste momento.

Guardadas as proporções das comparações históricas, ele nos ensina que o maior perigo numa situação de defensiva estratégica é permanecer numa posição passiva.  Isto é, ficar limitado nas bandeiras políticas e palavras de ordem que meramente respondem à ofensiva do inimigo.

É preciso, agora, retomar uma bandeira política que coerentemente retome a luta democrática de forma ofensiva. Esta bandeira é a Constituinte. Somente ela impedirá que o golpe que já rasgou o pacto democrático de 1988, além de retirar os direitos sociais constitucionais, esvazie ainda mais os espaços democráticos de nosso sistema político.

Permanecer numa defensiva “passiva” não será suficiente para romper o cerco político. Agora, como em outros momentos da nossa história, é preciso apostar na ousadia.

*Ricardo Gebrim é advogado e integrante da Direção Nacional da Consulta Popular.

 

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