ECONOMIA E IDEOLOGIA

 

neoliberalismo

Por José Luis Perera


Em uma recente entrevista no semanário “Búsqueda”, o chanceler uruguaio, Rodolfo Nin Novoa, disse algumas coisas que mereceriam figurar no mais alto pódio das frases do ano, no seu afã de justificar a pretensão do governo em assinar TLCs (Tratado de Livre Comercio) e de ingressar à Aliança do Pacífico e outros tratados do mesmo estilo. Por exemplo, disse: “A assunção do presidente Macri e sua equipe mostra que é um governo que no econômico não põe ideologia”. Como se as políticas do Consenso de Washington, os ditados do FMI ou do BM e as pressões dos poderosos do mundo fossem totalmente carentes de ideologia.

Disse também que “sem dúvida, deve-se deixar de analisar os temas comerciais a partir do ideológico. Isso tem que mudar, senão ficaremos isolados. As novas tendências comerciais no mundo nos obrigam a analisar esse assunto e assumir a situação com realismo”. E mais adiante: “Considero-me um homem de esquerda, mas olho o mundo com realismo. Olhando a realidade do mundo, e não com ideologia. É simples isso: o comercio e a ideologia são dois assuntos separados”.

Claro que isso não é novo no discurso progressista.

Em seu primeiro governo e tentando justificar sua vontade de assinar um TLC com os EUA, Vázquez disse que “equivoca-se quem em nome dos princípios acredita que o comercio é um assunto de ideologia”, e logo seu ministro de economia (Astori) desenvolveu ainda mais a ideia dizendo que há que equilibrar os princípios com o pragmatismo, evitando preconceitos, que os objetivos se relacionam estreitamente com os princípios, e que, em geral, as ferramentas e os instrumentos se relacionam especialmente com o pragmatismo. Que não podemos confundir as coisas, nem deixar que esquemas ideológicos ou preconceitos dificultem o caminho da eleição dessas ferramentas.

É um discurso que pretende apresentar a economia como uma ciência incontaminada que só utiliza ferramentas para obter determinados fins, por fora de qualquer ideologia. Enquanto pontificam as bondades e excelências da economia de mercado, do livre comercio e os tratados e acordos entre blocos, esquecem de falar da crescente desigualdade na distribuição da renda e da riqueza, da concentração do poder econômico e financeiro, do aumento do trabalho sazonal, do problema dos emigrantes, das necessidades sociais insatisfeitas, da desigualdade das mulheres frente aos homens, dos problemas ecológicos ou a pobreza e a fome mundial, como se essas coisas nada tivessem a ver com a economia e o comercio. Conseguir o crescimento econômico tem se convertido no objetivo principal, ocultando como está sendo conseguido, a quem beneficia e qual é a qualidade desse crescimento. Isso, claro, é ideologia pura. Mascarada sob a aparência de objetividade cientifica, a economia vem construindo uma teoria com a qual é possível justificar, ocultar e permitir um sem fim de desigualdades sociais, explorações miseráveis e atentados contra a vida dos seres humanos. As relações entre economia e poder não só alimentam a crise econômica, mas sim também conflitos internacionais, fraturas e deteriorações sociais.

Muito pelo contrario, poderia se dizer que a ideologia econômica é a peça chave da ideologia dominante, a que tem a peculiaridade de se apresentar com roupagens científicas, apoiando-se em razões parciais que encobrem a sem-razão global das suas mensagens e interpretações.

Se as ações não se correspondem com os princípios que se proclamam, tanto as pessoas como os governos deixam de ser críveis. Mas, para o discurso progressista, é necessário apresentar a economia como algo puramente pragmático, distanciado de objetivos e princípios. Uma força política que se auto-define como de esquerda e anti-imperialista, que ao chegar ao governo adota como uma das suas primeiras medidas a assinatura de um tratado através do qual protege os investimentos do imperialismo ianque, necessariamente deve justificar sua forma de atuar.

Como escreveu Carlos Quijano, na Marcha, no ano 72, “definitivamente, quando as modas passam, só ficam os princípios. Há que defendê-los mais nas más que nas boas, sem temor a perder amizades ou de somar inimizades. A única política fecunda é a que se ajusta a princípios. Já o ensinava – nada mais, nada menos – Lenin”.

Publicado originalmente em: http://elblogdejuanjopereyra.blogspot.com.br/2015/12/economia-e-ideologia-por-jose-luis.html

*Traduzido ao português pelo Blog OS IRREDENTOS

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