Carta de Geraldo Sardinha: reafirmando caminhos de luta em 2016

Camaradas:

A situação interna do Brasil mudou a partir das eleições de outubro de 2014. A nova configuração do poder legislativo, tem deixado fragilizado o governo do PT. Por outra parte, ante a fragilização da revolução bolivariana pela crise político-econômica da Venezuela e o resultado das eleições legislativas, a perda das eleições presidenciais pelo Kirchnerismo (Argentina), conferem ao desenlace da crise brasileira, um valor simbólico para as lutas populares de toda América Latina.

Sem dúvida, a continuidade das políticas sociais redistributivas e da política externa brasileira, tem peso real e simbólico para América Latina e o mundo.  Por isso a responsabilidade histórica do povo brasileiro organizado é agora maior.

A situação é muito complexa. Mesmo ainda não abraçando a causa dos trabalhadores, o atual governo é produto de eleições legítimas, e é mais suscetível às pressões populares, do que seria a alternativa que os golpistas querem impor, expectada com simpatia pelo establishment dos EUA.

Na atual conjuntura, configurada pela perda da iniciativa e influência do governo no congresso, pelo oportunismo e falta de consistência de importantes aliados políticos, as conquistas alcançadas estão em perigo.

A presidenta e o núcleo de governo, em lugar de abraçar as reivindicações dos movimentos sociais que lhe deram a vitória no apertado segundo turno, está aplicando a tradicional receita do FMI para enfrentar a crise econômica. E para os trabalhadores que decidiram seu triunfo, a presidenta apenas tem promessas até agora inconsistentes.

Nestas circunstâncias a direita joga pesado, sempre vem por mais, em lugar de acalmar-se com as concessões, promove um juízo político para depor a presidenta. E pretende instaurar com mais rigor o neoliberalismo e mudar aquilo em que o governo atual marca uma diferença, sua política externa.

Os tradicionais donos do poder, herdeiros da ‘Casa Grande’ e seus aliados subservientes, continuam com os mesmos métodos de sempre, sua guerra ideológica em todos os níveis; agressão física contra os militantes, assassinatos de líderes do MST, dos líderes indígenas, companheiros jovens presos.

É preciso fechar as brechas aos golpista, apesar das vacilações da equipe de governo. Devemos unir nossas forças em um apoio crítico, exigindo a luta pela justiça social que inspirou a fundação do PT e está em suas raízes e possibilitou sua chegada ao governo, em 2003. Temos que oferecer um apoio firme, demando aplicação de políticas anti-ajuste, fortalecendo o mercado interno, e um Brasil integrado no Mercosul, reafirmando sua autodeterminação a serviço de seu povo, perante o império estadunidense e seus aliados da OTAN.

unidade

Não podemos ficar calados frente às práticas autoritárias operadas na Argentina, onde o novo presidente, a golpe de decretos e medidas de urgência, tem reduzido drasticamente os impostos do agronegócio [arrebatando bilhões de dólares do orçamento social], reprimindo os protestos dos trabalhadores, empreendendo, com a cumplicidade do judiciário, a destituição de todas as autoridades das autarquias [Banco Central, Autoridade Federal de Serviço a comunicação audiovisual
(Afsca), etc.] que foram nomeadas pelo congresso e cujos mandatos iriam até 2017. Não podemos ficar indiferentes ante os abusos da direita que sempre está disposta a destruir por todos os meios os avanços populares e reeditar, segundo as novas circunstâncias seu Plano Condor.

A máscara de civismo da nova direita, durou somente as semanas da campanha eleitoral, logo manifestou-se uma atitude extremamente autoritária e antidemocrática: repressão de operários que demandam seus direitos trabalhistas, exoneração massiva de ativistas que trabalham em organizações estatais de memória, verdades e justiça, desconhecimento da lei mais amplamente discutida na história argentina, a lei de meios de comunicação.

Nossa responsabilidade histórica, como povo brasileiro, é muito grande. É lamentável que ainda aflorem manifestações de inconsciência, permaneçamos em pequenas capelas e divididos entre nós. Nessa situação, a amnesia histórica desempenha a função de perpetuar a dominação imperialista.

Companheiros e camaradas é preciso pensar em todos que caíram, em todos que morreram, em combate e sob tortura, em todos que lutaram… Para que lutaram?

– Para que as empresas fundamentais fossem controladas pelo imperialismo americano e os grandes capitalistas locais?

Para que as terras continuassem nas mãos das grandes famílias; Para que os sem-terra continuassem passando fome, para que nossos irmãos no campo continuem na miséria?

Para que em nosso país sigam sendo sugados milhões de dólares todo ano pelos que concentram as riquezas?

Para que os empobrecidos continue sem escolas, sem hospitais, sem casa, vivendo em barracos nas ruas como indigentes?

Não estou falando aqui para os convencidos da possibilidade e necessidade revolução. É preciso poder chegar até os insensíveis, os indiferentes, os confusos! É preciso ganhar o coração do nosso povo!

Companheiros militantes, temos que resgatar o melhor de nossa experiência de luta, essa experiência não pode ser jogada no lixo da história. Temos que extrair ensinamentos para poder realizar transformações revolucionárias, do contrário, seremos derrotados por nossas próprias divisões, nossas picuinhas, nosso desejo de aparecer e não somente pelo império.

A revolução mais difícil e dura é a que travamos em nós mesmos. Como expressa o camarada Lenin:

“Aqueles que esperam ver uma revolução “pura”, nunca viverão para vê-la. Essas pessoas prestam um fraco serviço à revolução ao não compreender o que é uma revolução!”

Não existe a revolução pura, participemos na luta, mesmo em meio das ambiguidades, para conquistar o máximo de vida digna para nossos povos.

organizem-se

*Geraldo Jorge Sardinha foi integrante do PCBR e ex-preso político. Outra organização que compõe a trajetória da sua militância é o  MLN-Tupamaros. Produtor do Documentário “Os Irredentos”.

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