A atualidade de Carlos Marighella

Paulo Cannabrava (*)

 

Três pontos fundamentais do pensamento de Carlos Marighella são de extrema atualidade.

1) Carlos Marighella qualificava a ditadura brasileira de fascista.

2) Entendia que o caráter da revolução brasileira é de libertação nacional dando início à construção do socialismo.

3) Propugnava pela formação de uma grande frente de massas, com hegemonia da aliança operário-camponesa para realizar a revolução brasileira.

Vejamos cada um desses pontos.

O fascismo
Carlos Marighella conhecia o que foi o fascismo europeu. Em síntese, pode-se dizer que era a ditadura do capital monopolista exercida pelo estado militarizado, utilizando-se de técnicas avançadas de comunicação e manipulação das massas organizadas no partido do governo.

Aqui no Brasil, no essencial, a ditadura militar representou a apropriação do Estado pelo capital monopolista. Essa característica por si só já justifica sua qualificação como fascista. Não obstante, o fascismo caboclo tem suas especificidades que lhe dão uma aparência externa diferente o suficiente para enganar os incautos. Não utiliza um grande partido de massa, mas implanta um regime de partidos tutelados. No lugar das grandes mobilizações reprime violentamente as organizações populares, castra suas lideranças, manieta a imprensa e censura o pensamento intelectual. As técnicas de propaganda, muito mais sofisticadas, são usadas para alienar, amedrontar, convencer.

O fascismo caboclo teve, no ciclo de governos militares, um caráter nacional. Nisso se assemelhava um pouco mais ao fascismo europeu que embora submisso à hegemonia da potência imperialista européia de então, a Alemanha hitlerista, procurava privilegiar o desenvolvimento nacional, inclusive o seu próprio capital monopolista. Essa preocupação com o desenvolvimento nacional é a única grande característica de fundo que vai mudar no fascismo caboclo com o advento da Quinta República. A submissão ao capital monopolista imperialista agora é total. O eixo do capital já não é bancário/industrial e sim financeiro/especulativo. A era Collor/FHC é a do desmanche do parque industrial.

Com relação à política, continua sendo praticada por partidos tutelados, sem propostas ou mesmo personalidade própria. Técnicas cada dia mais sofisticadas de comunicação e de manipulação das massas continuam sendo empregadas para manter as massas alienadas. Analfabetismo, desemprego, exclusão, violência e medo formam um cenário sumamente difícil para o trabalho e desenvolvimento de partidos populares. Nunca, desde D. João VI, tivemos uma imprensa tão submissa.

Libertação Nacional
Carlos Marighella dizia que o caráter da revolução brasileira é de libertação nacional. A luta de libertação nacional constitui uma etapa na luta dos povos em que o principal objetivo é conseguir a independência e o desenvolvimento. A conquista desse objetivo deve abrir as portas para construir uma sociedade plena de justiça social, humana e solidária, uma sociedade socialista.

O ponto de partida para se alcançar esse objetivo é a perfeita caracterização do inimigo. Se estivéssemos no tempo de Carlos Marighella, ele diria que o fundamental é derrocar o domínio imperialista, pois a apropriação do estado brasileiro pelo capital monopolista se deu sob a égide do imperialismo. Na década de 60, era o imperialismo das corporações transnacionais hegemonizadas pelo capital estadunidense.

Estivesse entre nós Carlos Marighella ele diria que o principal inimigo continua sendo o imperialismo, agora travestido de globalização; o capital especulativo que está transformando o mundo num grande cassino; os burocratas incrustados na administração pública trabalhando em favor dos interesses imperiais; os oligarcas e burgueses responsáveis e co-responsáveis pelo desmanche do Estado e da Nação.

Nunca, desde Pedro Álvares Cabral fizeram tanto dano ao País. A metrópole colonial saqueava, praticava o genocídio dos índios e negros, mas construía. Os anos de estagnação mais o desmanche do patrimônio das últimas décadas constitui um retrocesso de tal ordem que serão necessários mais 20 ou 30 anos para voltarmos, proporcionalmente, ao mesmo nível e ritmo de produção dos anos 70.

Frente de massas
Identificado o inimigo, diria Marighella, a tarefa principal dos patriotas e democratas é forjar a unidade das forças que o combaterão. Propugnava então pela formação de uma ampla frente política, que sob a hegemonia da aliança operário-camponesa, conduzisse as massas à revolução. Na conjuntura dos anos 60, em que Cuba empolgava com seu exemplo, acrescentou o ingrediente da guerrilha, porém, concebida como parte de um plano estratégico e tático global. Dizia o documento do Agrupamento Comunista de São Paulo, que selou o rompimento com as teses conciliatórias do PCB e lançou a idéia da resistência armada:

Enfim, o que queremos é construir a estrutura global necessária ao desencadeamento e enraizamento da guerrilha, com o seu núcleo armado operário e camponês, visando transformá-la num exército revolucionário de libertação…

Mas, qual era a proposta de Carlos Marighella para mudar a situação vigente? A resposta pode ser encontrada no manifesto da ALN lido pelas rádios e publicado pelos jornais em agosto de 1969. Não se pode deixar de apontar a analogia dessa proposta com a formulada pelos revolucionários da Aliança Nacional Libertadora que em 1935 se diziam contra o imperialismo, contra o fascismo e contra o latifúndio e propunham um governo popular para realizar a reforma agrária, suspender o pagamento da dívida e nacionalizar as empresas estrangeiras. Marighella, com a mesma simplicidade e objetividade afirmava, 30 anos depois:

Pertencemos à Ação Libertadora Nacional e o que propomos é derrubar a ditadura, anular todos os seus atos desde 1964, formar um governo revolucionário do povo; expulsar os norte-americanos, confiscar suas firmas e propriedades e as firmas e propriedades dos que com eles colaboram; transformar a estrutura agrária do país, expropriando e extinguindo o latifúndio, dando terra ao camponês, valorizando o homem do campo; transformar as condições de vida dos trabalhadores, assegurando salários condignos, melhorando a situação das classes medias; assegurar a liberdade em qualquer terreno, do campo político ao campo cultural ou religioso; retirar o Brasil da condição de satélite da política externa dos Estados Unidos, colocá-lo no plano mundial como nação independente.

Será que é preciso mudar alguma linha desse manifesto??

(*) Paulo Cannabrava Filho é jornalista e foi companheiro de Marighella na ALN.

Nasceu em Paraíso, interior de São Paulo, em 29 de abril de 1936

Militante do PCB desde fins da década de 1950 até 1967 quando participou da formação do Agrupamento Comunista de São Paulo, origem da ALN onde seguiu militando enquanto existiu.

Perseguido e com prisão decretada viveu 12 anos no exílio forçado, de 1968 a 1980

Jornalista desde 1957 até hoje.

O referido artigo foi publicado, inicialmente, em http://www.carlos.marighella.nom.br/sobre.htm há alguns anos, contudo continua pertinente e atual.

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Um comentário sobre “A atualidade de Carlos Marighella

  1. a luta segue estamos atentos e nas ruas pacifica e democraticamnete xumprindo a constituição enquanto eles os fascistas intefralistas monarquista tentam rasgar todas as folhas e adulteram as praticas constituicionais com golpes e ações executivas que atentam e atacam o patrimonio nacional das nossas riquezeas e achatam os salarios com crise e sesemprego, é a Nova Ordem Mundial o Admiravel Mundo Novo; Non passaron; Dpgnidade ou morte, medo de ter medo, ou como aformou Marighella Não tive tempo de ter medo

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